Nenúfares

Nenúfares
Monet

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Casa torta

Foto de Adriana Gragnani
As veias de cimento não sangram mais
Nem  os ruídos dos bodoques salpicam os olhos da casa.
 Rasgões nos vidros cegos castigam a retina

Mas

Na parede exausta, a vida vigia.

Teresa Magalhães

domingo, 28 de novembro de 2010

Querências


Luzídio. Assim se chamava o moço, nascido e criado no sertão mineiro, à beira do Rio São Francisco. Nunca desarredou-se dali. Era 1940, época de permanecer entre aindas e crendinices.  Vivia de lapidar a cinzel na pedra sabão - artista nato. Desconhecia as letras, porém sabia ler a maciez dos corpos cravados nas rochas. Luzente no sorriso branco, na pele lisa e jovem. Quieto, generoso com os miseráveis. A sua oficina ficava ao pé de uma encosta, lugar de difícil acesso. Para se chegar ali só a cavalo ou a pé. Mesmo assim, raramente passava um dia sem que houvesse visitas ilustres.  Dos pobres, cobrava não.
- Seo Luzídio, quero encomendar uma santa do tamanho de gente graúda, lustrosa, pra cumprir promessa à Senhora de Todas as Graças, só que não tenho dinheiro não sinhô.
-Se apêie, Belermino,  se é por milagre, custa nada não.
 Um palrear aqui , outro acolá ou longos minutos de demoras. Por fim, as horas tombavam na tarde mineira. Depois do trabalho, tinha uma única destinação: levar uma rubra flor para Emiliana, a bem-amada. Era uma Dahlia coccínea, cultivada em estufa, rara na região. O dia era rodeamento do tempo, para estar perto-dela, no valioso fugidio de um minuto. Ia ávido. Depositava a rosa na janela e partia para casa. Costumaz, contumaz. Tão costumeiro hábito que recebeu o epíteto: ‘o moço da dália’.
A jovem preparava gracioso enxoval, costurado por dona Almerinda, portuguesa de mãos lindas, conhecedora de muitos feitiços. Luzídio e Emiliana estavam de casamento tremarcado. Iam viver numa casinha talhada na pedra, feita por ele. Mimo de artesão. A vida, um-só-aguardamento. Do nascedouro até então, morava com o pai e a mãe, já velhinhos, e o irmão – Ostrócio – que era aluado e sabia encantar os lambaris do riacho. Vieram ao mundo muito próximos um do outro, diferença de 11 meses. Desde a meninice, Ostrócio era misterioso, tinha olheiras arroxeadas que lhe davam feição de velhinho. A pele muito branca mostrava o mapeamento das veias azuis. O coração batia tão forte que a circunvizinhança escutava o tum-tum. Fugia ao convívio comum, sabia acalmar as crianças que tinham que ser chupadas por sanguessugas, prática antiga de abaixar a febre terçã.
Luzídio via as estranhezas por dentro. Desimportava. Quando eram crianças, o pai ficou desempregado. Vivia acabrunhado e resmungante. Para ver o sorriso nos olhos dele, o milagreiro enchia a despensa do casebre com deliciosas iguarias. Bastava apertar bem o pensamento focalizado no desejo, ele se realizava. O artista sabia que o irmão não era deste mundo, respeitava suas esquisitices. Também era silencioso e sua excentricidade preocupava a mãe. Desde a pequeninice, vivia enfiando as mãos na terra, caveava, revolvia-a, separava os seixos com cuidado, amassava-a como se fosse fazer pão. Depois de obter uma consistência pastosa, modelava coisas nunca vistas neste planeta.  O que fiz, meu Deus, pra ter duas crianças tão estranhas, redizia a mãe.
Cresceram assim, de insólito modo.
A uma semana do casório, Luzídio, na sofreguidão de levar a Dália para a noiva, atravessou o rio para recortar caminho, molhando-se inteiro. A água estava enfeitiçada. Como em um ritual religioso, passou na casa da noiva, que esperava ansiosa por ele e a dália. Ao ouvir passos, ela correu à janela. Nem deu tempo de tirar o vestido de noiva que experimentava. Hoje quero falar com ele, antes que se vá. Tinham os olhos úmidos, os dois, brilhantes como o nome dele. Lanterna que Deus acende dentro dos amantes.
-Emiliana, minha flô.
- Luzídio, luz da minha vida.
Ele se assombrou quando botou tento na belezura da moça. A tarde se vestiu de noite ao notar que ela trajava o vestido branco. Ó, vale dos azares!
- Emiliana...
- O quê, o quê? Ela ainda sorria.
- Não podia vê vossa mercê com a vestimenta do grande dia.
O sorriso dela fugiu como a presa correndo do predador. Tenha medo não, nada vai nos separar, fingia confiança. A voz eivada de tremura. Vá, vá antes que anoiteça, a chuva se esconde atrás da primeira montanha. Ficarei contando os segundos para vê ocê de novo.
Ele partiu. Chegou a casa pálido, os olhos baços. Ostrócio anteviu a estranhez. Queria despersuadir-se do fatalismo, mas agosto é mês de desgosto, e estavam na metade de um. Sobretudo, acordara com o canal premonitório afiado. Mau agouro. Naquela noite, Emiliana teve sonhos ruins. Reviravoltava-se entre o lençol e o escuro. Nébulas e trevas. O amanhecer pariu um dia chuvoso. Chorante. Malvadez do destino?As linhas tortas na escritura borrada. É, é. Uma febre ruim pegou Luzídio de jeito. Sangrava pelos poros e, em poucas horas, perdera a consciência. Foi correria, benzeção, choradeira. Inconformismo. Pedro e Tião da  Tonha saíram cedo para trazer o doutor. O Ford 29 encalhou.
Não era pra ser.
Ostrócio, que veio a Terra milagrar, nada pôde fazer. Dona Almerinda tentou todas as razões e emoções para justificar a dessabença das feitiçarias que apregoava. Luzídio, exangue, foi levado pelos anjos e arcanjos. Leve como devem ser os artistas. A tarde caía, sol e chuva renitente. Emiliana, viúva sem-véu. Tanto chorou, que o rio transbordou. Contam os vizinhos que ela nunca se casou e que, toda tarde, à mesma hora da visita diária, há uma dália afogueada em sua janela.
                                                                     
              Teresa Magalhães

                      

    



terça-feira, 9 de novembro de 2010

O pulo do gato

Capturado e captura. O gato, o rato, o pássaro.- Mas onde o rato?- Na pulsação inconsciente da ratoeira que espreita. Ela tem olhos verdes e azedos que brilham no cinza-escuro metálico. Espiona o rato ausente, que fareja o olho, que tem medo do gato. É de metal o bico do pássaro.As asas de plástico ritmosas sustentam o vôo. A vida em suspense. São leves demais para a pesada tarefa de carregar seu corpo de ferro. É feito de carne e pêlo e fome o larápio. Prepara o pulo. O gato.

Teresa Magalhães

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bandeira, com sua licença


Foto de Adriana Gragnani

Vi ontem um mendigo
À sombra de uma sibipiruna,
Entre ruídos urbanos,
Aconchegado em cama de pedra

O mendigo não era um homem,
O mendigo não era uma mulher.
O mendigo, meu Deus, era um cão!

Teresa Magalhães

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tempos pós-modernos

Toulouse  Lautrec


A mesa era no canto. O bar imenso, ainda vazio. Sozinha, Manoela fumava e bebia uma bebida amarga. Olhos pregados no copo. Vez em quando ouvia uma frase solta, que vinha da rua. Um pigarrear. Silêncio de novo. Trazia um livro, que folheava, às vezes, sem nada ler. O pensamento longe colocava um sorriso em sua boca. Se alguém a flagrasse, pensaria está apaixonada. Mas não. A paixão já arrefecera. Virou  refrigério para os dias ásperos.
Ela o viu pela primeira vez em um vernissage. Olhava uma escultura em madeira - uma mulher nua, que em vez de pernas tinha raízes. Atenta, via o trabalho, quando um rapaz se aproximou. Não era feio nem bonito. Ousado. Anhoto e insinuante, tocou os seios da obra de arte. Ela sentiu um tranco como se fosse tangida por aqueles dedos longos. O homem lançou-lhe um olhar atiçador que a fez estremecer e um precoce sorriso de aquiescência uniu os dois. Era ele o artista da exposição cujas obras seguiam um estilo erótico e surrealista. Moreno, longilíneo, longos cabelos arranjados em um rabo de cavalo. As orelhas  à mostra exibiam um brinco de brilhante, quase feminino. Entretanto, a voz grave e os trejeitos másculos desmentiam a feminilidade. Mãos fortes, gestos firmes. Olhar manhoso, fonte de inúmeras sensações que afluíam para ela. Consciente do fascínio que exercia.
 Na primeira noite, sonhou com as mãos dele tocando os seios da escultura. No aguaçal onírico, as mamas frias de madeira eram as dela, ferventes e encrespadas pelo toque imaginário.
- Outra  bebida, senhora? O garçom  arrancou-a do mergulho.
- Sim, outra dose da mesma, por favor.
Teve a impressão de que o garçom percebera seus seios eriçados. Levantou-se, foi ao banheiro se recompor. Apenas na volta, notou que o bar estava cheio. Varreu o longo salão com o olhar. No canto oposto, o inesperado - ele! Foi em sua direção. Cabisbaixo, assustou-se  ao ouvir a voz de Manoela.
- Você por aqui!  Que deliciosa surpresa!
- Oi, Manoela. Como está?
- Bem, muito bem, fingia ela. Pedro, pensava em você. Como vai a vida, tem produzido bastante? Enquanto falava, com um jeitinho brejeiro, ela se lembrava da única noite de amor que tiveram.
- Vou indo. Produção se amiudando. Quer dizer, na verdade, não estou nada bem. Acabo de  pegar o resultado do teste...
- Teste?
- Sim, aquele mais sinistro.
- E então?
Desassossego. O tempo se esgarçando enquanto as paredes a comprimiam. As mãos de Pedro tremeram. Titubeou. Ela precisava saber. Por fim, abriu o envelope e deu o veredictum:
- Positivo. Olha aqui, Manoela, positivo!
O desespero roubou a leveza de seus gestos. As pupilas se dilataram, sentiu as pernas bambas. Taquicardia. Aterrorizada reavaliava a palavra. Quer dizer que positivo é negativo? Negativo é positivo? Jamais pensara na finitude. “Quando a indesejada das gentes chegar.” Lembrou-se do professor de Literatura declamando o poema de Manoel Bandeira. Queria ter a ironia do poeta para dizer à morte: - Alô, iniludível!
- Não acredito! Como?  Tem certeza? Quer dizer que...
- Sim, é melhor procurar um médico.
                
Teresa Magalhães

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Último dos encantos

Escultura de Camille Claudel
O abraço forte, a candura enlouquecida

Vago espaço enfraquecido pelo tempo

Saudade impossível de ser esquecida

Ah! Se eu fosse alado como o amor!



Beijaria teu dorso como o vento

Que sopra a fragrância dos mares,

Bronzearia tua pele

Com o calor do meu corpo,

Diria as palavras repousantes,

Jamais ditas pelos amantes,

Acenderia a vela apagada

E, quase naufragada dos olhos,

Com a réstia pálida que a maré

Quebrante partiu no estrondo de um grito.



Ah! Se eu fosse o marinheiro das bocas abandonadas!

Suavizaria o sono perdido

Apaziguaria os lábios deixando o silêncio

A sede, o desejo, a vontade, a peregrinação

Na brisa dos loucos ardores...

Perfumaria a atração das formas

Com o cheiro das constelações desconhecidas

Faria a vela acesa navegar

Próxima da noite enaltecida

Como se a última luz fosse a nossa.



Ah! Se eu fosse poesia ou poeta!

Recitaria a vertigem de tanto voar

O medo da solidão do deserto

A vaidade de tantos TANTO em tão pouco

Mesmo querendo ocultar tudo

Quando todos os sentimentos esquecerem

O orgulho que o ciúme destrói.



Se eu fosse amor, marinheiro e poesia!

Apagaria todo futuro sem condições

Pelo amor incontável que apenas

Um coração é capaz de suportar

Pelas vezes finitas já amadas

E agora o encanto esculpe

No infinito dos versos a última cruzada

Mas só se eu for marinheiro das bocas abandonadas.

Texto de FLÁVIO HENRIQUE TOSHIRO USHIROBIRA, advogado, mora em Ribeirão Preto,
aluno do curso Ave, Palavra há um ano.

domingo, 17 de outubro de 2010

O olhar

Foto de Adriana Gragnani

Entre o veludo  verde
 e a aspereza cinza,
ela depositou
os olhos de mormaço.
Deixou-os ali,
eternizados em doce melancolia.

Teresa Magalhães


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Amores Líquidos



O título do livro Amor Líquido, do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, é sugestivo e, sobretudo, apropriado para um sentimento que não se submete docilmente a definições.(...)
A noção de liquidez, quando se refere às relações humanas, tem um sentido inverso ao empregado nas relações bancárias, a disponibilidade de recursos financeiros. A liquidez de quem tem uma conta polpuda no banco, acessível a partir de um comando eletrônico é capaz de tornar qualquer desejo uma realidade concreta. É um atributo potencializador. O amor líquido, ao contrário, é a sensação de bolsos vazios.(...)

Esse mundo líquido, em que as relações se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, vive em constante e frenético movimento.  A rapidez da troca de informações e as respostas imediatas que esse intercâmbio acarreta nas decisões diárias; qualidades e produtos que ficam obsoletos antes do prazo de vencimento; a incerteza radicalizada em todos os campos da interação humana; a falta de padrões reguladores precisos e duradores; são evidências compartilhadas por todos os que estão neste barco do mundo pós-moderno. Se esse é o pano de fundo do momento, ele vai imprimir sua marca em todos as possibilidades da experiência, inclusive nos relacionamentos amorosos. O sociólogo Zygmunt Bauman mostra como o amor também passa a ser vivenciado de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, e, no entanto, nunca os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter o rumo da relação.
O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes, o que explica o sucesso do que o autor chama de casais semi-separados. Ou então, mais ou menos casados, o que pode ser praticamente a mesma coisa. Não dividir o mesmo espaço, estabelecer os momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitar o tédio e os conflitos da vida em comum podem se tornar opções que se configuram como uma saída que promete uma relação com um nível de comprometimento mais fácil de ser rompido. É como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. A concentração no movimento da busca perde o foco do objeto desejado. Insatisfeitos, mas persistentes, homens e mulheres continuam perseguindo a chance de encontrar a parceria ideal, abrindo novos campos de interação. Daí a popularidade dos pontos de encontros virtuais, muitos são mais visitados que os bares para solteiros, locais físicos e concretos, onde o tête à tête, o olho no olho é o início de um possível encontro. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias, e sem prejuízos. Num mundo instantâneo, é preciso estar sempre pronto para outra. Não há tempo para o adiamento, para postergar a satisfação do desejo, nem para o seu amadurecimento.É preciso se ligar, mas é imprescindível cortar a dependência, deve-se amar, porém sem muitas expectativas, pois elas podem rapidamente transformar um bom namoro num sufoco, numa prisão. Um relacionamento intenso pode deixar a vida um inferno, contudo, nunca houve tanta procura em relacionar-se. (...) Bauman vê homens e mulheres presos numa trincheira sem saber como sair dela, e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida às custas de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor. A conclusão não pode ser outra: “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”.
Fonte:  Jornal Gazeta Mercantil

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A toalha de Dona Zilá

                                                    Foto  de Adriana Gragnani

 A esperança de Dona Zilá
 balançava ao vento,
 Bandeira de margaridas,
 hasteada no varal muito alto,
 prenunciava  a noite regada a vinho e olhares febris...
Teresa Magalhães

                                   *  *   *

...e no silêncio do lusco-fusco,
ela despia uma margarida,
pétala por pétala,
lentamente num bemmequer,
mal-me-quer, bemmequer, mal-me-quer,
bem..

 Salviano Santos

                              * * *

                           

      - Dona Zilá, olhe quem está em seu jardim!
       É o senhor das flores
Ele entrega rosas para quem lhe sorri.

- Que  belo sorriso, Dona Zilá
Receba este ramalhete.
Ande, deixe de dengo, venha cá!

- Sou homem de bem, Dona,
Ando  entre os quintais,
Faço agrados a quem me apraz

A mulher, grávida de esperança, colheu seu presente.
Tardes voaram e noites se arrastaram,
uma a uma.
Dona Zilá continuou a esperar.

Nícolas


O camafeu

Há dias estava obcecada por um camafeu que havia desaparecido. Era uma relíquia de família, tão antiga quanto seus ancestrais. Com quem estaria a peça delicada que virou ideia-fixa? Recordava cada minúcia da joia. Esculpida em ágata, uma figura delicada de mulher em alto relevo brilhava sobre estrutura oval, com as bordas rendadas em ouro.
Morreu a vizinha, velha amiga da família. Ela não gostava de chegar perto de caixões, mas resolveu prestar sua homenagem, com os olhos quase fechados. Ao se defrontar com a morta...Mas que quartzo! No pescoço desbotado de Dona Constância, faiscou o camafeu que a atormentava. Aproximou-se, a contragosto, para lhe beijar a testa e surrupiou a joia da falecida. Nunca teve coragem de usá-la, embora fosse sua por direito. Parecia-lhe que cheirava à morte. Ficou para sempre escondida no fundo falso na gaveta.

Teresa Magalhães

sábado, 18 de setembro de 2010

Palavrando II

Salvador Dali





O engolidor de sonhos

          Mulata, cabelos semelhantes à lã, fisionomia empapuçada. Assunta era seu nome. Aos 40 anos teve um filho tardio. Deu-lhe o estranho nome de Onírico, porque acreditava no valor premonitório dos sonhos. Sua boca franzia ao pronunciar o nome do garoto. As vogais fechadas desenhavam um ó com os lábios: O-ní-ri-co. As meninas – eram 3 – já estavam na universidade. Uma estudava Matemática. A primogênita, Letras, e a mais apegada ao irmão, Jornalismo. Assunto diferente não faltava em casa. Enredos de romances, de notícias trágicas e escândalos políticos misturavam-se aos comentários sobre aritmética, trigonometria e equações, na hora do jantar.
         Em certo dia, o filho ouviu uma de suas irmãs dizer à mãe sobre um sonho muito bom que tivera, mas de que não se recordava muito bem. Subitamente, o menino abandonou o cômodo onde estavam, e foi para seu quarto. Esperou alguns instantes até que irmã que lidava com números ficasse sozinha. Correu até ela. Tomou-lhe a mão e pediu que o levasse para um pequeno passeio. Ela o seguia,  em linha reta, quando Onírico pediu que ela dobrasse à esquerda.
        - Você não disse um pequeno passeio, menino? Não podemos demorar muito, temos que chegar antes que o jantar esteja pronto.Um murmúrio do menino a convenceu, e assim ela o acompanhou. E lá estava o mesmo campo florido dos sonhos dela...
         A irmã não podia acreditar no que viu. Assombrada, olhava o irmão, olhava o mundo enramalhetado e não sabia se o que experimentava era devaneio ou realidade. Arrebatada pela atmosfera de sonho, correu pela campina, de mãos dadas com Onírico, até que chegou a hora de voltar a casa. Ela lhe prometeu segredo e retornaram.
A moça dos números era a mais cética das três, talvez por isso tenha ficado bastante perturbada com o ocorrido. Que poder tinha Onírico de penetrar o cenário dos  sonhos?   O campo era lindo e simples,matutava... Por quê, então, ela nunca o vira, em suas caminhadas pelos arredores?
-Vamos, garoto!  Já abusamos da hora.
        Ao chegarem, sentarem-se à mesa, sob o olhar aflito da mãe. Por que demoraram tanto?O jantar com todos reunidos era costumeiro e esperado. Onírico não incomodava mais ninguém ali com suas excentricidades
, mas, em momentos de quietude,  ele se culpava ingenuamente. Quando mais novo, não se dava conta de que tinha um pequeno problema que o diferenciava dos demais e até mesmo incomodava alguns. Agora, com dez anos,  cultivava uma angústia precoce. Todos da casa sabiam que o garoto passava pela fase dos questionamentos e das incertezas. A sua companheira de passeio comia vagarosamente, desejando que alguém rompesse o silêncio, falando sobre o que se passava. A futura jornalista da família percebeu o comportamento anormal de sua irmã e riu colocando a mão na boca. Tarde demais. Um garfo chocou-se com um prato. Depois, reinou o maior dos silêncios.
 Problema.  Assunta assumiu solita o filho de um turista italiano, que nunca mais deu notícias. Ela nem sabia o sobrenome do dito cujo. Onírico, que por princípio era um sonho, foi virando um baita pesadelo. Ainda havia um elemento complicador:  a falta de dinheiro em casa. Aos 10 anos, o garoto já era maior que as irmãs.  Mas o que gerava confusão, é que tinha um sestro. Quando ria, dava uma piscada forte com o olho esquerdo. A diretora da escola, acumulando reclamações das professoras, não aguentava mais Onírico.
       -Assunta! Mãezinha! seu filho precisa cair na real e com ele toda a sua feminina família, disse Dona Mafalda, a diretora, em mais uma chamada da genitora à escola, dando-lhe uma piscada com o olho direito.
       Assunta observou bem aquele abrir e fechar de olhos da Senhora Dona Diretora. Aquilo lhe pareceu zombaria de mau gosto, afinal, seu filho era quem tinha o cacoete da piscadela. Ela, a mãe, sabia  que era um tique nervoso e ficava deverasmente contrariada com o desentender dos outros, que não o conheciam bem. Ah, se o maledeto italiano estivesse aqui pra defender nosso filho! Seu rosto, então, ganhou uma expressão nunca vista antes. Eu não preciso de marido, dizia a si mesma, para se convencer de que isso era uma verdade. Mas ao ver o seu menino vulnerável, exposto à maldizência, ficava triste. Foi isso que Onírico leu em seus olhos, naquele instante. Aquele olhar marcou-o para sempre.
           A mãe, por um instante, recordou-se do primeiro encontro com o pai de Onírico. Fazia já 11 anos. Alta, seios fartos, derrière empinado e quadris largos. Sambava na avenida, quando o olhar estrangeiro de um jovem muito pálido a fez perder a ginga. Ele acompanhava a cadência da mulata e via o suor escorrer pelo seu rosto matreiro. Os lábios, vermelhos de batom, abriam-se num sorriso muito branco, convidando o italiano para acompanhá-la naquele momento em que se imaginava rainha.
             E o italiano fez-lhe o sonho. Assunta, a rainha do lar.
            Amaram-se nas noites de frio, foram confidentes. A diferença da cultura e da cor da pele provocava no casal uma atração que eles não podiam negar ou fingir que não existia. Agora, sem ele e após mais um dia de trabalho, ela se deitou, exausta. E desligando o abajur, mirou o teto torto da casa onde vivia com seus filhos.
          Imagens distorcidas e com muito brilho atormentaram, naquela noite, a mente de Assunta. Era um sonho incomum. Como em um filme do Kurosawa, mergulhava em alguma obra de Van Gogh. Era desesperador. Sem aviso e tão de repente como  uma chuva passageira, veio a calmaria, pássaros cantando enquanto ela caminhava com um semblante sereno por uma trilha repleta de vegetação. O corpo da dona de casa acalmou-se mais uma vez, sobre a cama de casal.
       No outro quarto, Onírico transpirava e de olhos fechados, digeria um sonho diferente. As cenas que a mãe vivenciava enquanto dormia, chegavam a ele com uma força impiedosa. O corpo magro do menino inquietava-se e a boca fechada anunciava que o momento era só dele. Pânico. Com a camisa empapada de suor, ele sentou-se na cama e tentou gritar. O medo de revelar os sonhos da mãe impediram que a voz saísse de pronto. Tentou ainda caminhar, sair dali. Mas os pés pareciam presos ao chão de cimento. Na garganta, um bolo estava formado. O sonho de Assunta se concretizara no corpo do filho.
    Entre  tremores e suores, adormeceu.
    No dia seguinte, uma tranqüilidade aparente pairava no lar. As meninas estavam na aula. Assunta, quieta em seu quarto, olhava o peito que levantava a cada respirar. Onírico entrara lentamente no aposento, deixando o ranger da porta atrapalhar o silêncio. Seu olhar não era o mesmo.
   Aproximando-se da mãe, balbuciou ternuras e sentou-se na cama. Tomou cuidado para não acordá-la.
 - Filho...
  A voz saiu sonolenta e, com os olhos entreabertos, tocou as têmporas do menino. Ele não transpirava como antes e a roupa havia secado.
  - Mãe, a senhora sonhou que hoje...
 Com a mão direita, ela rapidamente impediu que ele pronunciasse o seu tão secreto sonho. Não que houvesse algo condenável. Eram recortes do seu inconsciente, sua parte mais obscura. Tinha direito à privacidade. Ao sentir que ele havia entendido a mensagem, lentamente, afrouxou o lacre que havia feito com a mão na boca do filho e levantou-se para deixar que a luz do sol iluminasse o quarto. De costas para ele, sentiu vontade de abraçá-lo. E estava prestes a fazê-lo, quando ruídos estabanados anunciaram a chegada das três filhas.
     Sem pedir licença, entraram para beijar a mãe e ao verem o irmão acordado e quieto, entreolharam-se curiosas.
  -Uai, madrugou, maninho? – perguntou a estudante de Matemática já imaginando que a explicação seria simples. Uma leve insônia, uma dor nas costas... Não precisaria complicar.
  - Vai à missa com as beatas? – Riu a estudante de Letras puxando um banquinho para se sentar.
   Apenas a estudante de Jornalismo permitiu-se compartilhar com o irmão a solidão silenciosa. E ajoelhando-se na frente dele, envolveu-o num abraço cheio de cumplicidade.Ele nada disse. Apenas sabia que aquele instante fora antecipado pelo sonho da noite anterior.

   Apesar da tenra idade, Onírico compreendeu que adivinhar o íntimo dos outros era seu destino. Conformou-se, mesmo sem antever se tal responsabilidade era prêmio ou maldição.

 Texto alinhavado por Teresa A. e escrito por Vera V., Salviano S., Adriana G., Cláudia A., Nícolas, Ida F.

domingo, 5 de setembro de 2010

Palavrando

Umberto Eco, escritor e semiólogo italiano, diz que ' para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível. Constrói-se um rio e na margem esquerda coloca-se um pescador, e, se esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever. Que faz um pescador? Pesca. E depois? (...) E se, levado pela correnteza, passasse um cadáver? Não se pode esquecer que o meu pescador tem uma folha penal suja. Quererá correr o risco de meter-se na enrascada? Fugirá, fingindo não ver o cadáver? Temperamental como é, ficará furioso por não ter realizado ele próprio a sonhada vingança? Como se vê, bastou mobiliar nosso mundo e já se tem o início de uma história. O problema é construir o mundo, as palavras virão quase por si sós.'
 
Que tal construir um mundo? A ideia é criar histórias insólitas. Eu começo. Você continua e vamos alinhavando palavras, cenas, personagens situados em um tempo e um espaço. Conflitos, emoções reinventadas. Vamos lá?
 


O sobrado de Aurélia
Aurélia de Alcântara herdou um sobrado. Ficava  em uma rua escura, camuflado entre árvores altas e frondosas. Quando foi construído, no fim do século XIX, ali era uma fazenda. O edifício tinha paredes brancas, hoje cobertas pela umidade e pelo abandono. Outrora, janelas e portas pintadas com cores vibrantes coloriam a paisagem. No século XX, havia palidez nas cores. A construção dava ênfase aos telhados, possuía porão e sótão, escadaria de madeira. Os quartos do pavimento superior tinham janelas ovaladas que misteriosamente ainda se abriam. Olhos que espiavam. O andar social possuía salas espaçosas, a biblioteca, a antiga e aconchegante saleta de jogos, ainda o compartimento com mesa para doze pessoas. O acervo de arte reunia obras de artistas brasileiros e europeus. Cozinhas, área de serviço. Na parte externa, grande quantidade de quartos onde dormia a criadagem. Do enorme gramado restou um mataréu.

A casa, que acolheu quatro gerações, teve seu tempo de majestade, momento em que os primeiros Alcântaras tinham os filhos pequenos e a maior produção cafeicultora da região. Atualmente, dizem, é mal assombrada. Os vizinhos contavam que às sextas-feiras as luzes se acendiam e o jazz antigo adentrava a madrugada, causando calafrios nos que moravam pelas imediações.

Aurélia era uma das últimas descendentes da família. Dramaturga. Magra, aparência frágil, círculo escuro ao redor dos olhos. Hesitante, chegou para tomar posse da propriedade. Sabia dos rumores que corriam a respeito do imóvel. O ambiente lúgubre, vidros quebrados, o interior coberto de teias de aranha, os móveis revestidos por um tecido amarelecido e empoeirado, provocaram-lhe um tropel de arrepios.  Chegou acompanhada de sua inseparável amiga Clara, que em tudo lhe era oposta: gorda, decidida e curiosa. O que causava arrepio a uma, para a outra era desafio. Clara, moça prática e de sorriso fácil, percebeu o terror de Aurélia. Fez um discurso desenfreado sobre os  projetos mirabolantes que realizariam: os funcionários contratados  trabalhariam bravamente. As escadarias de madeira seriam restauradas, os móveis descobertos, tudo seria cuidadosamente limpo e organizado. O matagal que circundava o terreno seria retirado. Aos poucos, pintariam a casa, consertariam os balanços do jardim, arrumariam as rachaduras da piscina.

Mas nem Aurélia e muito menos a amiga imaginavam o que teriam que enfrentar, para dar uma finalidade útil à herança. Clara ainda percorreu seus olhos atentos pela imensidão do ambiente, quando sentiu-se atraída por um cômodo à sua esquerda. Ficava a poucos passos de onde estava e foi com o coração aos pulos que ela se dirigiu ao local. Ao tentar abrir a porta, o trinco fez o caminho de volta sem se destravar.

- Aurélia, venha aqui! O que tem neste quarto?

 Sua voz era firme. Puxando a mão da herdeira, convidou-a para forçar com o peso do corpo a entrada daquele lugar que, de alguma forma, parecia estar à espera de ambas.O silêncio era sinistro e qualquer ruído tomava dimensões apavorantes. Aurélia se perturbava até mesmo com o estalar do piso centenário e com baratas que faziam explorações rotineiras, pelas paredes da casa. Sua amiga, bem mais confiante e com faro investigativo, girou novamente o trinco sofisticado da porta, dessa vez puxando-a de leve para si. A porta bem escura, mas conservada, abriu-se. As duas entraram olhando para o piso que rangia, bastante incomodadas por uma irritação nos olhos e um odor fortíssimo que entrava voraz em suas narinas

O quarto era iluminado por uma fresta de luz vinda das janelas empoeiradas. Estantes e mais estantes com recipientes enormes de vidro repletos de aranhas e outros bichos afogados em formol. Um falso esqueleto,suspenso por um tripé, parecia mexer-se. Após alguns minutos, Aurélia e sua amiga já observavam com atenção todos aqueles vidros e outros objetos, que destoavam de tudo, no palacete . Clara se dirigiu à janela para abri-la, alumiando o ambiente opressivo e espantando o cheiro misto de mofo e  formol . O sol quentinho invadiu o espaço tomando todos os lugares, até mesmo outros mais obscuros. O teto de arquitetura ímpar capturou a atenção de Aurélia por alguns segundos.  Lembrou-se:

Ah...este é o quarto de meu primo Thirso. Era dado a certas manias, como se vê aqui. Catalogava pequenos insetos e bichos da fazenda. Dizia sempre que o Brasil ainda o reconheceria como um grande biólogo que não era! Trouxe da Europa esse esqueleto, que dizia ser o resto de uma amada que morrera em seus braços, em Paris. 

Ouviu-se a sonora gargalhada de Clara.

No mesmo instante, as duas escutaram um rouco sussurro, acompanhado de um ventinho gelado. O som parecia vir do assoalho. Foi crescendo, crescendo, até se transformar em grito agudo.Os olhares de ambas se cruzaram e, tomadas pelo pavor, deram um passo para trás. O rosto pálido de Aurélia e suas mãos geladas procuraram segurança em Clara, que já amparava a amiga.

- Credo!!! A interjeição ouvida pareceu-lhes um ribombar de sineta em escocla primária d´antanhos. Giraram sobre os próprios pés e encontraram a amável Aninha, caseira do velho sobrado. - Vamos colher amoras? É mais agradável do que imaginar alucinações e medos.
E Aninha continuou: sou do tempo em que se dizia que 'em se plantando tudo dá.' E lá foram as duas mulheres, sob o comando da caseira, conhecer o pomar da casa e suas amoreiras. Que deslumbre de cores e frutos!

Andaram em círculo, seguindo o caminho feito pelas formigas e sentaram-se à sombra da árvore.

A voz do comandante interrompeu minha leitura e informou: tripulação, pouso autorizado! Coloquei minha poltrona na posição vertical. Fechei o livro e o devolvi com um sorrizinho meio sem graça. De São Paulo a  Ribeirão Preto o tempo é muito curto. O livro me chamou a atenção pelo título : O sobrado de Aurélia. Afinal, Aurélia era o nome da minha gata.

Este texto é  resultado da criação coletiva, que contou com a participação de Vera V., Cláudia A., Nícolas M., Adriana G., Salviano S., Teresa M.

sábado, 4 de setembro de 2010

Teoria narrativa, gota a gota

  Personagens

Algirdas Julien Greimas, semioticista francês,  transpôs para a gramática da narrativa o conceito sintáctico de actante, lugar vazio que seria actualizado por uma personagem da narrativa, à qual caberia uma função. Cada actante se relaciona com outro por meio de três eixos diferentes: o eixo do saber, o  do querer e o  do poder, segundo o seguinte esquema, composto por seis actantes:



O sujeito é assim o protagonista que deseja um objeto, material ou imaterial. Para alcançar seu objetivo, é auxiliado/ prejudicado por forças/personagens, respectivamente adjuvantes ou oponentes. O destinador é a entidade que motiva a demanda do sujeito pelo objeto, sendo o destinatário o beneficiário dessa demanda.
 
“O narrador é sempre um personagem inventado, um ser fictício, como todos os outros personagens, cuja história ele “conta”, mas não é o mais importante deles porque a maneira como age – mostrando-se ou se escondendo, atrasando-se ou saindo em disparada, sendo explícito ou evasivo, falastrão ou taciturno, brincalhão ou sério – determina se os outros personagens irão nos convencer da sua verdade ou nos impedir de crer nela, levando-nos a vê-los como marionetes ou criaturas”.
Mario Vargas Llosa


Espaço

O espaço constitui uma das mais importantes categorias da narrativa, não só pelas articulações funcionais que estabelece com as categorias restantes, mas também pelas incidências semânticas que o caracterizam. Entendido como o domínio especifico da história, o espaço integra, em primeira instância, os componentes físicos que servem de cenário ao desenrolar da ação e à movimentação das personagens: cenários geográficos, interiores, decorações, objetos etc; em segunda instância o conceito de espaço pode ser entendido em sentido translato, abarcando então tanto as atmosferas sociais (espaço social) como até as psicológicas (espaço psicológico)
Reis e Lopes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Magnólia

Magnólia nasceu velha. A noite escura e chuvosa camuflou o susto da família que esperava o choro do bebê. Ventava muito. Ninguém nada não dizia com som de voz. O pensamento boiava obscuro. A mãe, renitente, olhava as mãozinhas trincadas, os lábios desenhando o formato côncavo da boca, o narizinho afilado e adunco, perdido entre rugas. O nome de flor – Magnólia -era uma aragem de esperança de que a garotinha florescesse vistosa e perfumada, nem que pelo ligeiro tempo das plantas. Pois. A amarfanhez da pele logo se dissolveu. Desencrespou primeiro o rosto, onde salientavam as bochechas rosadas e os olhos muito redondos, trigosos. Rejuvenescia à medida em que medrava.
A casa em que moravam era simples e ampla. Arejada. O mobiliário rústico de madeira escura, a louça branca, as toalhas muito claras e engomadas quebravam a austeridade do ambiente. Localizada no Arraial da Conceição, lugarejo remansado, onde mero trinado de passarinho era o bastante para quebrar a monotonia. A notícia do nascimento de Magnólia se espalhou velozmente. As primeiras visitas foram atraídas pela insólita novidade: o bebê velhinho. Os que vieram depois, pasmaram-se com o frescor de sua pele, e atribuíam ao zelo materno o rejuvenescer da criança. Era extremosa a dona Leda. Rica em minúcias, esmerava-se nos detalhes. E o perfume? O espaço foi dominado por uma fragrância suave e agradável, que atravessava as janelas e alcançava a rua. Ganhou fama.
Era a vez das felicidades. Quando a Lua rebrilhava no quintal, o verde ondeava ao vento e levava os perfumes, sobrevoava a horta e pasto e campo e o rocio da madrugada. A noite, se fazendo dia, esparramava o júbilo da casa. A alegria e os matizes aromáticos. A família rememorava antigos pais passados que partiram. A herdade ficou no sangue e no correr da língua da trisneta. Assim foi. Magnólia vicejou cheirosa e falante. Trazia do fundo do íntimo o legado da trisavó. Solfejava no campanário do tempo.
- Havéra de ser assim, ruminava a mãe com seus botões, quando um friinho fino trouxe do ontem o perfume doce da avó.
Mas não ficou bem desse modo e jeito. Magnólia, nem passados dez anos, voltou a envelhecer. A pele, de formosa e lisa, engruvinhou-se novamente e a sua mão ficou rugosa e fechada. Os pés pareciam um jenipapo amadurecido e redondo. E o nariz cresceu, provocado pelo renitente perfume que invadia os lugares por onde ela passava. Entontecia com os odores que a rodeavam. A natureza sábia tratou de criar uma defesa, para que o mundo parasse de rodar. Nasceram-lhe pêlos, muitos pêlos, no vão das narinas. Aos dez anos, Magnólia aparentava uma velhinha de 80. A notícia correu o povoado. Desde parteiras, benzedeiras, rezadores, raizeiros, passando pelo prático da farmácia, todos entraram em polvorosa excitação, afundando no medo de que o mal jamais seria debelado. . Pois a filha, não tinha dúvida a mãe, padecia de uma enfermidade , que ela enxergava ser velhice precoce, tal o estado do rosto, da pele do corpo. No fundo, sabia que essa doença era de morte, sem chance de recuperação nenhuma. O relógio do corpo corria ligeiro e se cansaria logo, para o desolamento dos que a amavam.

Teresa Magalhães

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Soca, pilão!


















Não era deslua. O satélite gritava no céu sua claridez. Era brilho e as lesmolisas touvas chamejaram sob as pedras. Luz tanta que machucava os olhos de Dona Branca. Longe, o prateado das águas pincelava a paisagem. Murmurejavam. Além da margem, mais adiante, avançando o pedregoso escarpado, o curral reunia a manada. As vaquinhas transluziam, pontilhando o lusco-fusco com a cor de cal. De repente, um teco-teco, em vôo arriscoso, roncou no céu agreste. Ave de bons augúrios - Seu Amaro. Ele veio resgatar a amada, que fazia farinha aleatória socando o pilão.

Sons alvacentos invadiam Dona Branca. Agitada, estupefazia a farinha, que subia e descia ao baque surdo do tronco tosco mal escavado. Tinha uma ema por lá, comendo cobras, que era o que ela fazia melhor. E tinha também uma capivara sem nome. Na densa mata a bordejar os pastos, jaguatiricas e macacos. Papagaios, periquitos, araras com os bicos altos, recurvados, aquietavam, no pouco-a-pouco.

Os roceiros que semearam a terra teriam o merecido sossego. O feijão borbulhando na panela bafejava o cheirinho gostoso da comida caseira. Crianças no beabá das cartilhas faziam a lição da Dona Rosa, professorinha rural. Letras bambas alcançavam a linha de cima, depois a linha debaixo, no caderno de caligrafia.

Lá fora, Dona Branca. Ainda. Esperava o Seu Amaro e socava a farinha para o tutu. De longe vinha um som de viola, metálico como o sorriso dele. Dedilhavam uma chorosa melodia cabocla. A melancolia do crepúsculo. O som-ímã atraiu os olhos de Branca. Tocou-a, corda estirada em vibrato. Trêmula, recebia Seu Amaro, que pousava devagar.

"Noite, dona Branca. Na lida até essa hora? Querendo, posso socar a mandioca". Era o que ouvia já de longe, mas as maritacas tardias se incumbiam de zelar pelo caos. Ela sentiu um torpor com cheiro de alecrim e gosto de ambrosia. Suspirou.

Amar, Amaro...

A negrura dos olhos dela furou a bruma farinhosa. Alumiados de doçura. Remexeu as cadeiras de aparência mansa. Tempestuosa, no íntimo. Mulher tímida disfarçava, nas roupas discretas, a fome de amar.

Mas Seu Amaro via, via tudo o que estava por vir. Via suas coxas úmidas, via o sangue pulsando forte em suas veias, via o coração desembestado, enquanto imitava o socar do almofariz com o peito arfando. Ele era o agrônomo, vinha sempre perguntar, perguntava e ouvia. Era o homem que escutava dona Branca. E por isso ela tremia como as varas de pescar que ele trazia, nos dias de folga, enquanto acompanhava o deslizar.

No ir-e-vir, vir-e-ir. Tronco, gral, farinha, olhos, quadris, seios arfantes. Seu Amaro foi ficando zonzo, foi-se achegando, todo doçura campestre. Tão perto que podia respirar o hálito febril de Dona Branca. Desmodo. Olhos, quadris, sangue, braços, a brancura dela, seu olhos tão negros....Ele não pôde. Ele pôde. Respirou fundo.

Eram perguntas descabidas para o momento, como andava a calda do agrotóxico? E todos usavam as luvas? E iriam mecanizar a colheita da soja e do milho ou nada disso? Então ela encostou de leve a perna úmida no pilão e depois a outra, sem perder de vista a atenção dele descendo até suas ancas.

Uma lembrança atravessou silenciosa entre os dois. O ex-marido, memória descorada pelos anos, estacou no terreiro antigo, encarando-a. Podia ver sua palidez moribunda, a mortalha branca assombrando-a. Pensou em correr, fugir dali. A memória das crianças pequenas, do companheiro tão bom, na lida com o roçado, sufocou-a. Precisava desviar-se do desejo urgente.

Porém.

Embaraçou-se no faz-que-fazia farinha, esbarrou no pé do agrônomo. Cambaleante. ‘Desculpa o mau jeito, Seu Amaro’.Em meio à singelez tanta pureza, Seu Amaro arresistido arrebatou Dona Branca. A noite ficou pequeninha para tanto amar.

Teresa Magalhães

domingo, 8 de agosto de 2010

Camélia

                                        
Senhoritas de Avignon- Pablo Picasso

Era mais uma corruptela que cidade. Faltosa e chuvarenta. O calor molhado e vermelho encharcava os pés dos passantes e deixava as fisionomias viscosas. O espírito atolado na lama. As casas simples, com janelas de madeira em cores pálidas, sarapintavam o terreno íngreme. Ali não havia organização urbana, as ruelas nasceram sem planejamento. Ora as construções se agrupavam, ora um grande hiato as separava. O lugarejo sobrevivia por uma razão exclusiva: era o ponto derradeiro de uma linha de trem que cortava o Estado. Quem não se aboletasse por aquelas bandas, teria que embarcar na jardineira do Pitelli, compartilhando o veículo com porcos e galinhas. Estrada de terra batida, repleta de buracos, levava os viajantes aos lugares vizinhos. A linha de trem era o divisor de águas entre o que nomeavam moças de família e as meninas de frete. O poder econômico acompanhava a topografia montanhosa. Lugares altos. Mansões. Na cidade baixa, no fim da Rua Nonhô do Livramento, ficava o lupanar. As mulheres-damas se reuniam ali e esperavam por melhores dias. Para a sobrevida, entresonhavam com os encontros, cujo interesse maior eram as escapadelas furtivas dos senhores de dinheiro.
A moradia com uma tímida varanda, pintada de azul celeste, parecia chorar. A tinta escorrida desenhava listas verticais. A dona, Maria dos Prazeres, era uma flor murcha. Encarquilhada. Os cabelos ralos mostravam o couro cabeludo, como se tivessem caído em tufos, vítima de alguma doença terrível. A boca sempre pintada de vermelho-rubro, tombada nas laterais, deixava escorrer a cor dos lábios trincados pelo tempo. Melancólica. Da beleza perdida, sobrou a casa, prêmio recebido de um homem que a amou de verdade. Mas isso fazia muito tempo. Abaixo dela, em idade, e de sua inteira confiança, havia Orinéia. Vista de costas, quando lavava a calçada, era confundida com uma garotinha de cintura fina e quadris apetitosos, porém o rosto tinha sinais capazes de afastar qualquer cristão. O nariz torto, herança de uma antiga surra. Os olhos bugalhudos, como se fosse fossem saltar do rosto, acomodavam-se em duas acentuadas bolsas de gordura e resumiam uma tristeza embaraçosa. A pele seca e amarfanhada. Trabalhadeira, cuidava da limpeza, em troca de teto e comida. Não era mais desejada pelos homens, o que representava um lenitivo: cansou de ser amada sem amor. Excluindo as duas vetustas, a juventude sorria na Morada Azul. A mais nova - Camélia - tinha 12 anos. Linda, linda. Conservava a virgindade à moda de quem guarda um tesouro.
Um dia veio a notícia: Maria dos Prazeres morreu vítima de infarto fulminante. Foi encontrada na cama, com as mãos enroladas em um rosário de pedrinhas verdes. A Morada Azul se inundou de curiosos. Não perdi a oportunidade. Queria ver por dentro como viviam as andorinhas. Não havia os cortinados de veludo vermelho, nem os tapetes fofos, nem as colchas de cetim que eu inventava em minhas fantasias. O ambiente nu em adereços, paredes descascadas, lençóis grosseiros. As mulheres, rostos borrados pelas lágrimas, caricaturavam as máscaras teatrais. Reproduziam o mesmo tipo de maquiagem branca, olhos pintados com lápis preto e batom vermelho. Os vestidos decotados afrontavam a morte. Feitas em série, na indústria do corpo. Menos Camélia. Destacava-se de tudo que eu já tinha visto nos meus parcos 13 anos. Parecia um anjo de olhos negros e cabelos cacheados que ensolaravam o tempo chuvoso. Os seios apontavam tímidos sob o discreto vestido de algodão. Os pés quase nus, sob as duas tirinhas da sandália, mostravam os dedos longos e afilados com um anelzinho de contas brilhantes. Servia café. Minhas mãos tremeram quando peguei a xícara. Elas e todo meu corpo acanhado me denunciaram. Abaixei os olhos para dissimular o rubor de vergonha e encantamento que a beleza da menina provocou em mim. Mergulhei-os na xícara, sem coragem de encará-la. Quando for embora daqui, vou me estapear por ser tão bobo. Mas o que eu pensei ser demérito, foi recompensa para a minha masculinidade. Para a garota, eu também era único. Não tinha o olhar cobiçoso dos homens que lhe causavam repugnância. Escondido em minha timidez, demorei a perceber isso.
A tarde escorreu entre lágrimas. O céu do cemitério encharcou os cabelos tintos das mariposas em delgado vôo vespertino. Baixaram o caixão. Levantou-se a voz grave de um homem, o qual fez um discurso barroco sobre o triunfo da morte. E a jovem Camélia, luzidia e perfumosa, celebrava a vida, como uma nesga de sol desafiando o dia melancólico. A leveza adolescente, deslizando entre as sepulturas, ignorava as idéias mórbidas que faziam eco no íntimo dos mais velhos. Antes de ir embora, aproximou-se de mim e deixou cair um bilhetinho com as letras borradas: - Espero você amanhã às 5 da tarde. Olhei para os lados, para trás, surpreso e ressabiado, antes de pegar o papel. Ela partiu, em tempo de voltar a cabeça. Num gesto lento e muito feminino, capturou-me de vez com um sorriso de cumplicidade. Camélia, a mais pura das mulheres, criada no meio das marafaias, foi meu primeiro amor.


Teresa Magalhães