Nenúfares

Nenúfares
Monet

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Casa torta

Foto de Adriana Gragnani
As veias de cimento não sangram mais
Nem  os ruídos dos bodoques salpicam os olhos da casa.
 Rasgões nos vidros cegos castigam a retina

Mas

Na parede exausta, a vida vigia.

Teresa Magalhães

domingo, 28 de novembro de 2010

Querências


Luzídio. Assim se chamava o moço, nascido e criado no sertão mineiro, à beira do Rio São Francisco. Nunca desarredou-se dali. Era 1940, época de permanecer entre aindas e crendinices.  Vivia de lapidar a cinzel na pedra sabão - artista nato. Desconhecia as letras, porém sabia ler a maciez dos corpos cravados nas rochas. Luzente no sorriso branco, na pele lisa e jovem. Quieto, generoso com os miseráveis. A sua oficina ficava ao pé de uma encosta, lugar de difícil acesso. Para se chegar ali só a cavalo ou a pé. Mesmo assim, raramente passava um dia sem que houvesse visitas ilustres.  Dos pobres, cobrava não.
- Seo Luzídio, quero encomendar uma santa do tamanho de gente graúda, lustrosa, pra cumprir promessa à Senhora de Todas as Graças, só que não tenho dinheiro não sinhô.
-Se apêie, Belermino,  se é por milagre, custa nada não.
 Um palrear aqui , outro acolá ou longos minutos de demoras. Por fim, as horas tombavam na tarde mineira. Depois do trabalho, tinha uma única destinação: levar uma rubra flor para Emiliana, a bem-amada. Era uma Dahlia coccínea, cultivada em estufa, rara na região. O dia era rodeamento do tempo, para estar perto-dela, no valioso fugidio de um minuto. Ia ávido. Depositava a rosa na janela e partia para casa. Costumaz, contumaz. Tão costumeiro hábito que recebeu o epíteto: ‘o moço da dália’.
A jovem preparava gracioso enxoval, costurado por dona Almerinda, portuguesa de mãos lindas, conhecedora de muitos feitiços. Luzídio e Emiliana estavam de casamento tremarcado. Iam viver numa casinha talhada na pedra, feita por ele. Mimo de artesão. A vida, um-só-aguardamento. Do nascedouro até então, morava com o pai e a mãe, já velhinhos, e o irmão – Ostrócio – que era aluado e sabia encantar os lambaris do riacho. Vieram ao mundo muito próximos um do outro, diferença de 11 meses. Desde a meninice, Ostrócio era misterioso, tinha olheiras arroxeadas que lhe davam feição de velhinho. A pele muito branca mostrava o mapeamento das veias azuis. O coração batia tão forte que a circunvizinhança escutava o tum-tum. Fugia ao convívio comum, sabia acalmar as crianças que tinham que ser chupadas por sanguessugas, prática antiga de abaixar a febre terçã.
Luzídio via as estranhezas por dentro. Desimportava. Quando eram crianças, o pai ficou desempregado. Vivia acabrunhado e resmungante. Para ver o sorriso nos olhos dele, o milagreiro enchia a despensa do casebre com deliciosas iguarias. Bastava apertar bem o pensamento focalizado no desejo, ele se realizava. O artista sabia que o irmão não era deste mundo, respeitava suas esquisitices. Também era silencioso e sua excentricidade preocupava a mãe. Desde a pequeninice, vivia enfiando as mãos na terra, caveava, revolvia-a, separava os seixos com cuidado, amassava-a como se fosse fazer pão. Depois de obter uma consistência pastosa, modelava coisas nunca vistas neste planeta.  O que fiz, meu Deus, pra ter duas crianças tão estranhas, redizia a mãe.
Cresceram assim, de insólito modo.
A uma semana do casório, Luzídio, na sofreguidão de levar a Dália para a noiva, atravessou o rio para recortar caminho, molhando-se inteiro. A água estava enfeitiçada. Como em um ritual religioso, passou na casa da noiva, que esperava ansiosa por ele e a dália. Ao ouvir passos, ela correu à janela. Nem deu tempo de tirar o vestido de noiva que experimentava. Hoje quero falar com ele, antes que se vá. Tinham os olhos úmidos, os dois, brilhantes como o nome dele. Lanterna que Deus acende dentro dos amantes.
-Emiliana, minha flô.
- Luzídio, luz da minha vida.
Ele se assombrou quando botou tento na belezura da moça. A tarde se vestiu de noite ao notar que ela trajava o vestido branco. Ó, vale dos azares!
- Emiliana...
- O quê, o quê? Ela ainda sorria.
- Não podia vê vossa mercê com a vestimenta do grande dia.
O sorriso dela fugiu como a presa correndo do predador. Tenha medo não, nada vai nos separar, fingia confiança. A voz eivada de tremura. Vá, vá antes que anoiteça, a chuva se esconde atrás da primeira montanha. Ficarei contando os segundos para vê ocê de novo.
Ele partiu. Chegou a casa pálido, os olhos baços. Ostrócio anteviu a estranhez. Queria despersuadir-se do fatalismo, mas agosto é mês de desgosto, e estavam na metade de um. Sobretudo, acordara com o canal premonitório afiado. Mau agouro. Naquela noite, Emiliana teve sonhos ruins. Reviravoltava-se entre o lençol e o escuro. Nébulas e trevas. O amanhecer pariu um dia chuvoso. Chorante. Malvadez do destino?As linhas tortas na escritura borrada. É, é. Uma febre ruim pegou Luzídio de jeito. Sangrava pelos poros e, em poucas horas, perdera a consciência. Foi correria, benzeção, choradeira. Inconformismo. Pedro e Tião da  Tonha saíram cedo para trazer o doutor. O Ford 29 encalhou.
Não era pra ser.
Ostrócio, que veio a Terra milagrar, nada pôde fazer. Dona Almerinda tentou todas as razões e emoções para justificar a dessabença das feitiçarias que apregoava. Luzídio, exangue, foi levado pelos anjos e arcanjos. Leve como devem ser os artistas. A tarde caía, sol e chuva renitente. Emiliana, viúva sem-véu. Tanto chorou, que o rio transbordou. Contam os vizinhos que ela nunca se casou e que, toda tarde, à mesma hora da visita diária, há uma dália afogueada em sua janela.
                                                                     
              Teresa Magalhães

                      

    



terça-feira, 9 de novembro de 2010

O pulo do gato

Capturado e captura. O gato, o rato, o pássaro.- Mas onde o rato?- Na pulsação inconsciente da ratoeira que espreita. Ela tem olhos verdes e azedos que brilham no cinza-escuro metálico. Espiona o rato ausente, que fareja o olho, que tem medo do gato. É de metal o bico do pássaro.As asas de plástico ritmosas sustentam o vôo. A vida em suspense. São leves demais para a pesada tarefa de carregar seu corpo de ferro. É feito de carne e pêlo e fome o larápio. Prepara o pulo. O gato.

Teresa Magalhães

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bandeira, com sua licença


Foto de Adriana Gragnani

Vi ontem um mendigo
À sombra de uma sibipiruna,
Entre ruídos urbanos,
Aconchegado em cama de pedra

O mendigo não era um homem,
O mendigo não era uma mulher.
O mendigo, meu Deus, era um cão!

Teresa Magalhães

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tempos pós-modernos

Toulouse  Lautrec


A mesa era no canto. O bar imenso, ainda vazio. Sozinha, Manoela fumava e bebia uma bebida amarga. Olhos pregados no copo. Vez em quando ouvia uma frase solta, que vinha da rua. Um pigarrear. Silêncio de novo. Trazia um livro, que folheava, às vezes, sem nada ler. O pensamento longe colocava um sorriso em sua boca. Se alguém a flagrasse, pensaria está apaixonada. Mas não. A paixão já arrefecera. Virou  refrigério para os dias ásperos.
Ela o viu pela primeira vez em um vernissage. Olhava uma escultura em madeira - uma mulher nua, que em vez de pernas tinha raízes. Atenta, via o trabalho, quando um rapaz se aproximou. Não era feio nem bonito. Ousado. Anhoto e insinuante, tocou os seios da obra de arte. Ela sentiu um tranco como se fosse tangida por aqueles dedos longos. O homem lançou-lhe um olhar atiçador que a fez estremecer e um precoce sorriso de aquiescência uniu os dois. Era ele o artista da exposição cujas obras seguiam um estilo erótico e surrealista. Moreno, longilíneo, longos cabelos arranjados em um rabo de cavalo. As orelhas  à mostra exibiam um brinco de brilhante, quase feminino. Entretanto, a voz grave e os trejeitos másculos desmentiam a feminilidade. Mãos fortes, gestos firmes. Olhar manhoso, fonte de inúmeras sensações que afluíam para ela. Consciente do fascínio que exercia.
 Na primeira noite, sonhou com as mãos dele tocando os seios da escultura. No aguaçal onírico, as mamas frias de madeira eram as dela, ferventes e encrespadas pelo toque imaginário.
- Outra  bebida, senhora? O garçom  arrancou-a do mergulho.
- Sim, outra dose da mesma, por favor.
Teve a impressão de que o garçom percebera seus seios eriçados. Levantou-se, foi ao banheiro se recompor. Apenas na volta, notou que o bar estava cheio. Varreu o longo salão com o olhar. No canto oposto, o inesperado - ele! Foi em sua direção. Cabisbaixo, assustou-se  ao ouvir a voz de Manoela.
- Você por aqui!  Que deliciosa surpresa!
- Oi, Manoela. Como está?
- Bem, muito bem, fingia ela. Pedro, pensava em você. Como vai a vida, tem produzido bastante? Enquanto falava, com um jeitinho brejeiro, ela se lembrava da única noite de amor que tiveram.
- Vou indo. Produção se amiudando. Quer dizer, na verdade, não estou nada bem. Acabo de  pegar o resultado do teste...
- Teste?
- Sim, aquele mais sinistro.
- E então?
Desassossego. O tempo se esgarçando enquanto as paredes a comprimiam. As mãos de Pedro tremeram. Titubeou. Ela precisava saber. Por fim, abriu o envelope e deu o veredictum:
- Positivo. Olha aqui, Manoela, positivo!
O desespero roubou a leveza de seus gestos. As pupilas se dilataram, sentiu as pernas bambas. Taquicardia. Aterrorizada reavaliava a palavra. Quer dizer que positivo é negativo? Negativo é positivo? Jamais pensara na finitude. “Quando a indesejada das gentes chegar.” Lembrou-se do professor de Literatura declamando o poema de Manoel Bandeira. Queria ter a ironia do poeta para dizer à morte: - Alô, iniludível!
- Não acredito! Como?  Tem certeza? Quer dizer que...
- Sim, é melhor procurar um médico.
                
Teresa Magalhães

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Último dos encantos

Escultura de Camille Claudel
O abraço forte, a candura enlouquecida

Vago espaço enfraquecido pelo tempo

Saudade impossível de ser esquecida

Ah! Se eu fosse alado como o amor!



Beijaria teu dorso como o vento

Que sopra a fragrância dos mares,

Bronzearia tua pele

Com o calor do meu corpo,

Diria as palavras repousantes,

Jamais ditas pelos amantes,

Acenderia a vela apagada

E, quase naufragada dos olhos,

Com a réstia pálida que a maré

Quebrante partiu no estrondo de um grito.



Ah! Se eu fosse o marinheiro das bocas abandonadas!

Suavizaria o sono perdido

Apaziguaria os lábios deixando o silêncio

A sede, o desejo, a vontade, a peregrinação

Na brisa dos loucos ardores...

Perfumaria a atração das formas

Com o cheiro das constelações desconhecidas

Faria a vela acesa navegar

Próxima da noite enaltecida

Como se a última luz fosse a nossa.



Ah! Se eu fosse poesia ou poeta!

Recitaria a vertigem de tanto voar

O medo da solidão do deserto

A vaidade de tantos TANTO em tão pouco

Mesmo querendo ocultar tudo

Quando todos os sentimentos esquecerem

O orgulho que o ciúme destrói.



Se eu fosse amor, marinheiro e poesia!

Apagaria todo futuro sem condições

Pelo amor incontável que apenas

Um coração é capaz de suportar

Pelas vezes finitas já amadas

E agora o encanto esculpe

No infinito dos versos a última cruzada

Mas só se eu for marinheiro das bocas abandonadas.

Texto de FLÁVIO HENRIQUE TOSHIRO USHIROBIRA, advogado, mora em Ribeirão Preto,
aluno do curso Ave, Palavra há um ano.

domingo, 17 de outubro de 2010

O olhar

Foto de Adriana Gragnani

Entre o veludo  verde
 e a aspereza cinza,
ela depositou
os olhos de mormaço.
Deixou-os ali,
eternizados em doce melancolia.

Teresa Magalhães