Nenúfares

Nenúfares
Monet

domingo, 3 de julho de 2011

Entre começos e fins

Mas talvez o fim de um amor
seja um fenômeno tão misterioso quanto o apaixonamento. Talvez existam duas
mágicas opostas, igualmente incontroláveis, uma que faz e outra que desfaz.
Contardo Calligaris



 
Ficar sozinha não era mais uma exceção.
Gostava do silêncio, da casa organizada e limpa. O mundo inerte, sem o alvoroço da juventude. Solidão tem muito de liberdade, mas também de aprisionamento, pensou. Sentia-se flagelada pelos desejos. Havia tantos quereres! Poderia escolher qualquer um deles, para realizar. Mas perdia-se. O que era mesmo que ia fazer agora? Voltou ao Retrato de Dorian Gray, que terminava de reler.  O ex tinha lido o mesmo exemplar. Maria folheou novamente o livro, para memorizar as frases sublinhadas por ele, com caneta de ponta grossa e as devidas anotações críticas, ao lado.  Era uma forma transversa de infiltrar-se em sua natureza misteriosa... Ela intuía algumas coisas dele, baseada em seus hábitos, mas sua penetração não atravessava a epiderme da alma. Homem de natureza impenetrável. Abriu o livro
numa página qualquer: "A única maneira de libertar-se de uma tentação é entregar-se a ela. Resista, e sua alma adoecerá de desejo das coisas que ela a si mesma se proibiu, com o desejo daquilo que suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilícito." Por um instante, o pensamento ficou vazio.
Concentrou-se na frase: ... "A única maneira de libertar-se de uma tentação é entregar-se a ela."  Foi o que ele fez.. Rendeu-se sem rédeas ao braseiro impetuoso que era o  entre-coxas da outra.  A mais branca de todas. A menos bonita. Porém, a mais doida.
Teresa Magalhães

 

terça-feira, 7 de junho de 2011

A crise da multitarefa


O Outono da Multitarefa

A Neurociência confirma o que todos suspeitamos: a multitarefa está nos deixando mais lentos e  loucos. A odisseia de um homem por meio do
pesadelo da conectividade infinita.

Por WALTER KIRN


A Recessão do Déficit de Atenção.


Todos nos lembramos das promessas. Dos slogans. Falavam de liberdade, liberação. Supostamente, estávamos de algemas e queríamos tirá-las. A chave que chacoalhava na nossa frente era um microchip.

"Aonde você quer ir hoje?"-perguntava a Microsoft numa campanha publicitária em meados dos anos 1990. A sugestão é de que haveria infindáveis destinos - alguns geográficos, alguns sociais, outros intelectuais - que poderiam ser alcançados em milissegundos ao se utilizar o aparelho certo com o software apropriado. Era também insinuado que onde você ia era totalmente por sua conta, não da sua esposa, do seu chefe, dos seus filhos ou do seu governo. Autonomia através da Automação.

Esta foi a falácia embrionária que se tornou no monstro da multitarefa.

Liberdade humana, como classicamente definida (pensar e agir e escolher com mínima interferência de poderesexteriores), não é um produto que marcas como Microsoft poderiam oferecer, mas eles a relançaram como algo que poderiam prover. Um produto para o qual poderiam aumentar a demanda através do refinamento de suas características, aumentando sua velocidade, reestilizando sua aparência e conectando-o com todos os outros produtos que também prometiam liberdade, mas a trocaram por três substitutos inferiores que poderiam promover em seu nome: Eficiência, conveniência e mobilidade.

Para provar que esse cacho de virtudes menores não se somam à felicidade mas são, ao invés, a fórmula para um período de frenesi crescente culminando num lapso de fadiga, considere que "Aonde você quer ir hoje?" era na verdade uma sugestão manipuladora, não uma questão aberta. "Vá a algum lugar agora", era a recomendação veemente, e então vá a algum lugar amanhã, mas sempre vá, vá, vá - e com nossa ajuda. Mas algum rebelde respondeu "Lugar nenhum. Estou bem aqui"? Alguém corajosamente questionou "O que te importa?" Alguém teve bravura suficiente para dizer: "Francamente, quero voltar para a
cama"!

Talvez alguns de nós. Não o suficiente. Todo mundo estava indo a algum lugar, pelo que parecia, e ou começávamos a ir também - especialmente para aqueles lugares que não eram lugares (outra palavra que eles redefiniram) mas eram apenas figuras ou documentos ou vídeos ou caixinhas na tela onde estranhos conversavam digitando - ou então não estaríamos em lugar nenhum (um local que já foi conhecido como "aqui") e não fazendo nada (atividade anteriormente conhecida como "vivendo"). Que desperdício seria. Que desperdício da nossa nova liberdade.

Nossa liberdade de ficar ocupado todas as horas, na tarefa - e então nas muitas tarefas e finalmente na multitarefa - de tentar ser livre.

                           * * *

Enquanto o presidente falava no telefone (Srta. Lewinsky supunha que o interlocutor era um Membro do Congresso ou um Senador), ela realizava sexo oral nele.

- The Starr Report, 1998

Não funciona, nem nunca funcionou, e, apesar de ainda fazermos força para que funcione e intrigados em por que ainda não paramos, o que nos faz pensar que podemos continuar para sempre, a parada ou desacelerada está vindo de qualquer modo e, quando chegar, ficaremos estarrecidos por um momento e então reconheceremos que, bem dentro de nós mesmos (um lugar que quase esquecemos que existia), sempre soubemos que não poderia funcionar.

Os cientistas também sabem disso e eles pensam que sabem o porquê. Através de diversos experimentos, muitos usando ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral, eles arrancaram a máscara da multitarefa e revelaram sua verdadeira face, pálida, vazia e sem graça.

A multitarefa desorganiza o cérebro de diversas maneiras. No nível mais básico, o balanço mental que ela requer - a mudança constante de eixo - energiza regiões do cérebro especializadas no processamento visual e coordenação física e simultaneamente aparenta diminuir algumas das áreas superiores, relacionadas ao aprendizado e memória. Nos concentramos no ato da concentração à custa do que quer que seja que deveríamos estar nos concentrando.

O que isso significa na prática? Considere um experimento recente feito pela UCLA [Universidade da Califórnia, Los Angeles], em que pesquisadores pediram a um grupo de vinte e poucas pessoas para pôr em ordem cartões indexados em duas tentativas, uma vez em silêncio e outra enquanto simultaneamente ouvindo uma sequência de sons aleatoriamente apresentados. Os cérebros dos sujeitos lidaram com a tarefa adicional alternando a responsabilidade do hipocampo - que retém e invoca informações - para o striatum, que cuida de atividades rotineiras, repetitivas. Graças a essa mudança, os sujeitos conseguiram organizar os cartões tão bem quanto com a distração musical - mas tiveram muito mais dificuldade em lembrar o que, exatamente, que estavam pondo em ordem, após o experimento.
Ainda pior, alguns estudos acham que a multitarefa aumenta o nível de hormônios relacionados ao estresse, como cortisol e adrenalina, e desgastam nosso sistema através de uma fricção bioquímica, envelhecendo-nos prematuramente. A curto prazo, a confusão, fadiga e caos apenas bloqueiam nossa habilidade de foco e análise, mas a longo prazo, talvez causem sua atrofia.

A nova geração, presumivelmente, é a que sofre o maior golpe. Eles que estão na vanguarda da revolução da multitarefa, mandando mensagens enquanto baixam música em seus iPods e atualizam seu status do Facebook e fazem a lição de casa enquanto assistem a um episódio de The Hills na TV cintilante. (Um estudo recente da Kaiser Family Foundation mostra que 53 por cento dos estudantes do sétimo ano ao terceiro colegial dizem consumir algum outro tipo de mídia enquanto assistem TV; 58 por cento fazem multitarefas enquanto leem; 62 por cento enquanto usam o computador; e 63 por cento enquanto ouvem música. "Fico entendiado se não está acontecendo tudo ao mesmo tempo", diz um jovem de 17 anos citado no estudo). São deles os cérebros que, ainda imaturos, estão sendo moldados para processar informação ao invés de entendê-la ou sequer lembrar-se dela. (...)

Tradução de Lucas Magalhães Araújo

quinta-feira, 3 de março de 2011

Soroca

Manelão chegou à socapa, vestido de aumentativo. Espectador arguto, guardava frases humorizadas para distribuir às moças que porventura o abordassem. Precocemente viúvo. Por isso, antes das falas, antes de tudo, tinha uma determinação: criar as duas filhas, resguardando-se de envolvimentos amorosos. Teodora mesclava amor e verbo em seu nome: teadorar, teodorar.  Bandeira arvorada ao vento. Não resistiu ao jeitão crítico e vistoso de Manelão e abriu um sorriso decotado. Manelão sentiu uma fisgada na memória adormecida: a morte escorrendo entre os dentes da engrenagem. Recolheu o desejo e partiu.

Teresa Magalhães

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Despedidas virtuais


Você já terminou um relacionamento pela internet ou por uma mensagem de celular?

contardo calligaris


NO SÁBADO passado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Xico Sá, Bebel Bertuccelli e eu comentamos os resultados de uma pesquisa, realizada pela Nokia, sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital.
Uma das perguntas da pesquisa dizia: "Você já terminou ou já terminaram um relacionamento com você via internet ou por mensagem de celular?".
Responderam positivamente 15% dos entrevistados. Já antes do debate, essa história de namoros terminados com uma mensagem virtual fez que eu fosse repetidamente consultado: o que achava desse horror tecnológico, hein?
Pois é, tendo a considerar esse tipo de despedida virtual com uma certa simpatia.
1) Em geral, aceitamos que, para muitos homens e mulheres, seja mais fácil encontrar alguém no mundo virtual do que no mundo real. Entendemos, por exemplo, que, na hora de seduzir, os tímidos, retraídos, acanhados ou inibidos soltem mais facilmente os dedos no teclado do que a palavra num encontro cara a cara.
Nota: seria injusto contrapor os que preferem o virtual aos que preferem o real como se os primeiros fossem mentirosos e, os segundos, honestos e sinceros. Virtual ou real, o encontro inicial é quase sempre um jogo em que se trata de convencer o outro de que somos alguma coisa que nem nós acreditamos ser. Quem prefere teclar talvez se esconda graças à distância, mas quem prefere falar ao vivo não abre sua alma: apenas desprende a lábia.
2) Se aceitamos que o virtual facilite a abordagem e as primeiras trocas, por que não deixaríamos que o virtual facilite também as despedidas? De fato, o virtual permite que os tímidos, os retraídos etc. declarem sua vontade de se separar, e isso sem medo de encarar torneios verbais que eles perderiam e que produziriam tentativas culpadas, penosas e infinitas de "reatar mais uma vez".
3) No começo de uma relação amorosa, o virtual talvez sirva para mentir melhor; no fim de um amor, ele pode ajudar a dizer a verdade, ou seja, a reconhecer, enfim, que uma relação está continuando apenas como mentira compartilhada.
4) Em média, a dificuldade em "encontrar alguém" não é maior do que a dificuldade em se separar quando uma relação não vale mais a pena.
5) Os tempos de solidão, durante a procura frustrada de um parceiro ou de uma parceira, são tão longos quanto os tempos de solidão de parceiros que vivem sem paixão, sem amizade e, às vezes, no rancor.
6) A insatisfação de quem procura um amor é esperançosa, enquanto a vida dos que não conseguem se separar é resignada.
7) Um SMS ou um e-mail de despedida podem surpreender quem os recebe, mas só como a revelação de algo que ele já sabia e, por alguma covardia, não confessava nem a si mesmo: ninguém termina virtualmente um amor que não esteja realmente morto.
8) Às vezes, sobretudo (mas não só) nas mulheres, a reação de quem recebe a mensagem de despedida é um pensamento delirante: o outro se separa de mim por SMS porque, se aparecesse na minha frente, ele teria que se render ao amor que ele ainda sente por mim (ele não sabe, mas eu sei que ele sente). Nesse caso, salve-se quem puder.
9) Toda separação é, no mínimo, a perda de um patrimônio comum de experiências e memórias. A dor dessa perda é frequentemente projetada no outro: digo que não posso ou não ouso me separar por e-mail ou SMS porque não quero machucar o outro, enquanto, de fato, é minha dor que quero evitar -com isso, eternizo o declínio da relação e o sofrimento do casal.
10) A convivência numa relação morta é um limbo confortável: para ambos, uma espécie de trégua do desejo. A separação apavora com a perspectiva de voltar a desejar. Antes de mandar um fatídico SMS, alguém hesita: "Vai ser difícil voltar à ativa com a minha idade" -e vai ser mesmo. Ou, então, pergunta: "E se eu ficar sozinho?"; resposta: "Mas você já está sozinho, há tempos".
Moral da história. É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga (mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, "Valeu, beijão e sorte". Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Casa torta

Foto de Adriana Gragnani
As veias de cimento não sangram mais
Nem  os ruídos dos bodoques salpicam os olhos da casa.
 Rasgões nos vidros cegos castigam a retina

Mas

Na parede exausta, a vida vigia.

Teresa Magalhães

domingo, 28 de novembro de 2010

Querências


Luzídio. Assim se chamava o moço, nascido e criado no sertão mineiro, à beira do Rio São Francisco. Nunca desarredou-se dali. Era 1940, época de permanecer entre aindas e crendinices.  Vivia de lapidar a cinzel na pedra sabão - artista nato. Desconhecia as letras, porém sabia ler a maciez dos corpos cravados nas rochas. Luzente no sorriso branco, na pele lisa e jovem. Quieto, generoso com os miseráveis. A sua oficina ficava ao pé de uma encosta, lugar de difícil acesso. Para se chegar ali só a cavalo ou a pé. Mesmo assim, raramente passava um dia sem que houvesse visitas ilustres.  Dos pobres, cobrava não.
- Seo Luzídio, quero encomendar uma santa do tamanho de gente graúda, lustrosa, pra cumprir promessa à Senhora de Todas as Graças, só que não tenho dinheiro não sinhô.
-Se apêie, Belermino,  se é por milagre, custa nada não.
 Um palrear aqui , outro acolá ou longos minutos de demoras. Por fim, as horas tombavam na tarde mineira. Depois do trabalho, tinha uma única destinação: levar uma rubra flor para Emiliana, a bem-amada. Era uma Dahlia coccínea, cultivada em estufa, rara na região. O dia era rodeamento do tempo, para estar perto-dela, no valioso fugidio de um minuto. Ia ávido. Depositava a rosa na janela e partia para casa. Costumaz, contumaz. Tão costumeiro hábito que recebeu o epíteto: ‘o moço da dália’.
A jovem preparava gracioso enxoval, costurado por dona Almerinda, portuguesa de mãos lindas, conhecedora de muitos feitiços. Luzídio e Emiliana estavam de casamento tremarcado. Iam viver numa casinha talhada na pedra, feita por ele. Mimo de artesão. A vida, um-só-aguardamento. Do nascedouro até então, morava com o pai e a mãe, já velhinhos, e o irmão – Ostrócio – que era aluado e sabia encantar os lambaris do riacho. Vieram ao mundo muito próximos um do outro, diferença de 11 meses. Desde a meninice, Ostrócio era misterioso, tinha olheiras arroxeadas que lhe davam feição de velhinho. A pele muito branca mostrava o mapeamento das veias azuis. O coração batia tão forte que a circunvizinhança escutava o tum-tum. Fugia ao convívio comum, sabia acalmar as crianças que tinham que ser chupadas por sanguessugas, prática antiga de abaixar a febre terçã.
Luzídio via as estranhezas por dentro. Desimportava. Quando eram crianças, o pai ficou desempregado. Vivia acabrunhado e resmungante. Para ver o sorriso nos olhos dele, o milagreiro enchia a despensa do casebre com deliciosas iguarias. Bastava apertar bem o pensamento focalizado no desejo, ele se realizava. O artista sabia que o irmão não era deste mundo, respeitava suas esquisitices. Também era silencioso e sua excentricidade preocupava a mãe. Desde a pequeninice, vivia enfiando as mãos na terra, caveava, revolvia-a, separava os seixos com cuidado, amassava-a como se fosse fazer pão. Depois de obter uma consistência pastosa, modelava coisas nunca vistas neste planeta.  O que fiz, meu Deus, pra ter duas crianças tão estranhas, redizia a mãe.
Cresceram assim, de insólito modo.
A uma semana do casório, Luzídio, na sofreguidão de levar a Dália para a noiva, atravessou o rio para recortar caminho, molhando-se inteiro. A água estava enfeitiçada. Como em um ritual religioso, passou na casa da noiva, que esperava ansiosa por ele e a dália. Ao ouvir passos, ela correu à janela. Nem deu tempo de tirar o vestido de noiva que experimentava. Hoje quero falar com ele, antes que se vá. Tinham os olhos úmidos, os dois, brilhantes como o nome dele. Lanterna que Deus acende dentro dos amantes.
-Emiliana, minha flô.
- Luzídio, luz da minha vida.
Ele se assombrou quando botou tento na belezura da moça. A tarde se vestiu de noite ao notar que ela trajava o vestido branco. Ó, vale dos azares!
- Emiliana...
- O quê, o quê? Ela ainda sorria.
- Não podia vê vossa mercê com a vestimenta do grande dia.
O sorriso dela fugiu como a presa correndo do predador. Tenha medo não, nada vai nos separar, fingia confiança. A voz eivada de tremura. Vá, vá antes que anoiteça, a chuva se esconde atrás da primeira montanha. Ficarei contando os segundos para vê ocê de novo.
Ele partiu. Chegou a casa pálido, os olhos baços. Ostrócio anteviu a estranhez. Queria despersuadir-se do fatalismo, mas agosto é mês de desgosto, e estavam na metade de um. Sobretudo, acordara com o canal premonitório afiado. Mau agouro. Naquela noite, Emiliana teve sonhos ruins. Reviravoltava-se entre o lençol e o escuro. Nébulas e trevas. O amanhecer pariu um dia chuvoso. Chorante. Malvadez do destino?As linhas tortas na escritura borrada. É, é. Uma febre ruim pegou Luzídio de jeito. Sangrava pelos poros e, em poucas horas, perdera a consciência. Foi correria, benzeção, choradeira. Inconformismo. Pedro e Tião da  Tonha saíram cedo para trazer o doutor. O Ford 29 encalhou.
Não era pra ser.
Ostrócio, que veio a Terra milagrar, nada pôde fazer. Dona Almerinda tentou todas as razões e emoções para justificar a dessabença das feitiçarias que apregoava. Luzídio, exangue, foi levado pelos anjos e arcanjos. Leve como devem ser os artistas. A tarde caía, sol e chuva renitente. Emiliana, viúva sem-véu. Tanto chorou, que o rio transbordou. Contam os vizinhos que ela nunca se casou e que, toda tarde, à mesma hora da visita diária, há uma dália afogueada em sua janela.
                                                                     
              Teresa Magalhães

                      

    



terça-feira, 9 de novembro de 2010

O pulo do gato

Capturado e captura. O gato, o rato, o pássaro.- Mas onde o rato?- Na pulsação inconsciente da ratoeira que espreita. Ela tem olhos verdes e azedos que brilham no cinza-escuro metálico. Espiona o rato ausente, que fareja o olho, que tem medo do gato. É de metal o bico do pássaro.As asas de plástico ritmosas sustentam o vôo. A vida em suspense. São leves demais para a pesada tarefa de carregar seu corpo de ferro. É feito de carne e pêlo e fome o larápio. Prepara o pulo. O gato.

Teresa Magalhães

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bandeira, com sua licença


Foto de Adriana Gragnani

Vi ontem um mendigo
À sombra de uma sibipiruna,
Entre ruídos urbanos,
Aconchegado em cama de pedra

O mendigo não era um homem,
O mendigo não era uma mulher.
O mendigo, meu Deus, era um cão!

Teresa Magalhães

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tempos pós-modernos

Toulouse  Lautrec


A mesa era no canto. O bar imenso, ainda vazio. Sozinha, Manoela fumava e bebia uma bebida amarga. Olhos pregados no copo. Vez em quando ouvia uma frase solta, que vinha da rua. Um pigarrear. Silêncio de novo. Trazia um livro, que folheava, às vezes, sem nada ler. O pensamento longe colocava um sorriso em sua boca. Se alguém a flagrasse, pensaria está apaixonada. Mas não. A paixão já arrefecera. Virou  refrigério para os dias ásperos.
Ela o viu pela primeira vez em um vernissage. Olhava uma escultura em madeira - uma mulher nua, que em vez de pernas tinha raízes. Atenta, via o trabalho, quando um rapaz se aproximou. Não era feio nem bonito. Ousado. Anhoto e insinuante, tocou os seios da obra de arte. Ela sentiu um tranco como se fosse tangida por aqueles dedos longos. O homem lançou-lhe um olhar atiçador que a fez estremecer e um precoce sorriso de aquiescência uniu os dois. Era ele o artista da exposição cujas obras seguiam um estilo erótico e surrealista. Moreno, longilíneo, longos cabelos arranjados em um rabo de cavalo. As orelhas  à mostra exibiam um brinco de brilhante, quase feminino. Entretanto, a voz grave e os trejeitos másculos desmentiam a feminilidade. Mãos fortes, gestos firmes. Olhar manhoso, fonte de inúmeras sensações que afluíam para ela. Consciente do fascínio que exercia.
 Na primeira noite, sonhou com as mãos dele tocando os seios da escultura. No aguaçal onírico, as mamas frias de madeira eram as dela, ferventes e encrespadas pelo toque imaginário.
- Outra  bebida, senhora? O garçom  arrancou-a do mergulho.
- Sim, outra dose da mesma, por favor.
Teve a impressão de que o garçom percebera seus seios eriçados. Levantou-se, foi ao banheiro se recompor. Apenas na volta, notou que o bar estava cheio. Varreu o longo salão com o olhar. No canto oposto, o inesperado - ele! Foi em sua direção. Cabisbaixo, assustou-se  ao ouvir a voz de Manoela.
- Você por aqui!  Que deliciosa surpresa!
- Oi, Manoela. Como está?
- Bem, muito bem, fingia ela. Pedro, pensava em você. Como vai a vida, tem produzido bastante? Enquanto falava, com um jeitinho brejeiro, ela se lembrava da única noite de amor que tiveram.
- Vou indo. Produção se amiudando. Quer dizer, na verdade, não estou nada bem. Acabo de  pegar o resultado do teste...
- Teste?
- Sim, aquele mais sinistro.
- E então?
Desassossego. O tempo se esgarçando enquanto as paredes a comprimiam. As mãos de Pedro tremeram. Titubeou. Ela precisava saber. Por fim, abriu o envelope e deu o veredictum:
- Positivo. Olha aqui, Manoela, positivo!
O desespero roubou a leveza de seus gestos. As pupilas se dilataram, sentiu as pernas bambas. Taquicardia. Aterrorizada reavaliava a palavra. Quer dizer que positivo é negativo? Negativo é positivo? Jamais pensara na finitude. “Quando a indesejada das gentes chegar.” Lembrou-se do professor de Literatura declamando o poema de Manoel Bandeira. Queria ter a ironia do poeta para dizer à morte: - Alô, iniludível!
- Não acredito! Como?  Tem certeza? Quer dizer que...
- Sim, é melhor procurar um médico.
                
Teresa Magalhães

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Último dos encantos

Escultura de Camille Claudel
O abraço forte, a candura enlouquecida

Vago espaço enfraquecido pelo tempo

Saudade impossível de ser esquecida

Ah! Se eu fosse alado como o amor!



Beijaria teu dorso como o vento

Que sopra a fragrância dos mares,

Bronzearia tua pele

Com o calor do meu corpo,

Diria as palavras repousantes,

Jamais ditas pelos amantes,

Acenderia a vela apagada

E, quase naufragada dos olhos,

Com a réstia pálida que a maré

Quebrante partiu no estrondo de um grito.



Ah! Se eu fosse o marinheiro das bocas abandonadas!

Suavizaria o sono perdido

Apaziguaria os lábios deixando o silêncio

A sede, o desejo, a vontade, a peregrinação

Na brisa dos loucos ardores...

Perfumaria a atração das formas

Com o cheiro das constelações desconhecidas

Faria a vela acesa navegar

Próxima da noite enaltecida

Como se a última luz fosse a nossa.



Ah! Se eu fosse poesia ou poeta!

Recitaria a vertigem de tanto voar

O medo da solidão do deserto

A vaidade de tantos TANTO em tão pouco

Mesmo querendo ocultar tudo

Quando todos os sentimentos esquecerem

O orgulho que o ciúme destrói.



Se eu fosse amor, marinheiro e poesia!

Apagaria todo futuro sem condições

Pelo amor incontável que apenas

Um coração é capaz de suportar

Pelas vezes finitas já amadas

E agora o encanto esculpe

No infinito dos versos a última cruzada

Mas só se eu for marinheiro das bocas abandonadas.

Texto de FLÁVIO HENRIQUE TOSHIRO USHIROBIRA, advogado, mora em Ribeirão Preto,
aluno do curso Ave, Palavra há um ano.

domingo, 17 de outubro de 2010

O olhar

Foto de Adriana Gragnani

Entre o veludo  verde
 e a aspereza cinza,
ela depositou
os olhos de mormaço.
Deixou-os ali,
eternizados em doce melancolia.

Teresa Magalhães


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Amores Líquidos



O título do livro Amor Líquido, do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, é sugestivo e, sobretudo, apropriado para um sentimento que não se submete docilmente a definições.(...)
A noção de liquidez, quando se refere às relações humanas, tem um sentido inverso ao empregado nas relações bancárias, a disponibilidade de recursos financeiros. A liquidez de quem tem uma conta polpuda no banco, acessível a partir de um comando eletrônico é capaz de tornar qualquer desejo uma realidade concreta. É um atributo potencializador. O amor líquido, ao contrário, é a sensação de bolsos vazios.(...)

Esse mundo líquido, em que as relações se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, vive em constante e frenético movimento.  A rapidez da troca de informações e as respostas imediatas que esse intercâmbio acarreta nas decisões diárias; qualidades e produtos que ficam obsoletos antes do prazo de vencimento; a incerteza radicalizada em todos os campos da interação humana; a falta de padrões reguladores precisos e duradores; são evidências compartilhadas por todos os que estão neste barco do mundo pós-moderno. Se esse é o pano de fundo do momento, ele vai imprimir sua marca em todos as possibilidades da experiência, inclusive nos relacionamentos amorosos. O sociólogo Zygmunt Bauman mostra como o amor também passa a ser vivenciado de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, e, no entanto, nunca os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter o rumo da relação.
O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes, o que explica o sucesso do que o autor chama de casais semi-separados. Ou então, mais ou menos casados, o que pode ser praticamente a mesma coisa. Não dividir o mesmo espaço, estabelecer os momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitar o tédio e os conflitos da vida em comum podem se tornar opções que se configuram como uma saída que promete uma relação com um nível de comprometimento mais fácil de ser rompido. É como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. A concentração no movimento da busca perde o foco do objeto desejado. Insatisfeitos, mas persistentes, homens e mulheres continuam perseguindo a chance de encontrar a parceria ideal, abrindo novos campos de interação. Daí a popularidade dos pontos de encontros virtuais, muitos são mais visitados que os bares para solteiros, locais físicos e concretos, onde o tête à tête, o olho no olho é o início de um possível encontro. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias, e sem prejuízos. Num mundo instantâneo, é preciso estar sempre pronto para outra. Não há tempo para o adiamento, para postergar a satisfação do desejo, nem para o seu amadurecimento.É preciso se ligar, mas é imprescindível cortar a dependência, deve-se amar, porém sem muitas expectativas, pois elas podem rapidamente transformar um bom namoro num sufoco, numa prisão. Um relacionamento intenso pode deixar a vida um inferno, contudo, nunca houve tanta procura em relacionar-se. (...) Bauman vê homens e mulheres presos numa trincheira sem saber como sair dela, e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida às custas de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor. A conclusão não pode ser outra: “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum”.
Fonte:  Jornal Gazeta Mercantil

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A toalha de Dona Zilá

                                                    Foto  de Adriana Gragnani

 A esperança de Dona Zilá
 balançava ao vento,
 Bandeira de margaridas,
 hasteada no varal muito alto,
 prenunciava  a noite regada a vinho e olhares febris...
Teresa Magalhães

                                   *  *   *

...e no silêncio do lusco-fusco,
ela despia uma margarida,
pétala por pétala,
lentamente num bemmequer,
mal-me-quer, bemmequer, mal-me-quer,
bem..

 Salviano Santos

                              * * *

                           

      - Dona Zilá, olhe quem está em seu jardim!
       É o senhor das flores
Ele entrega rosas para quem lhe sorri.

- Que  belo sorriso, Dona Zilá
Receba este ramalhete.
Ande, deixe de dengo, venha cá!

- Sou homem de bem, Dona,
Ando  entre os quintais,
Faço agrados a quem me apraz

A mulher, grávida de esperança, colheu seu presente.
Tardes voaram e noites se arrastaram,
uma a uma.
Dona Zilá continuou a esperar.

Nícolas


O camafeu

Há dias estava obcecada por um camafeu que havia desaparecido. Era uma relíquia de família, tão antiga quanto seus ancestrais. Com quem estaria a peça delicada que virou ideia-fixa? Recordava cada minúcia da joia. Esculpida em ágata, uma figura delicada de mulher em alto relevo brilhava sobre estrutura oval, com as bordas rendadas em ouro.
Morreu a vizinha, velha amiga da família. Ela não gostava de chegar perto de caixões, mas resolveu prestar sua homenagem, com os olhos quase fechados. Ao se defrontar com a morta...Mas que quartzo! No pescoço desbotado de Dona Constância, faiscou o camafeu que a atormentava. Aproximou-se, a contragosto, para lhe beijar a testa e surrupiou a joia da falecida. Nunca teve coragem de usá-la, embora fosse sua por direito. Parecia-lhe que cheirava à morte. Ficou para sempre escondida no fundo falso na gaveta.

Teresa Magalhães

sábado, 18 de setembro de 2010

Palavrando II

Salvador Dali





O engolidor de sonhos

          Mulata, cabelos semelhantes à lã, fisionomia empapuçada. Assunta era seu nome. Aos 40 anos teve um filho tardio. Deu-lhe o estranho nome de Onírico, porque acreditava no valor premonitório dos sonhos. Sua boca franzia ao pronunciar o nome do garoto. As vogais fechadas desenhavam um ó com os lábios: O-ní-ri-co. As meninas – eram 3 – já estavam na universidade. Uma estudava Matemática. A primogênita, Letras, e a mais apegada ao irmão, Jornalismo. Assunto diferente não faltava em casa. Enredos de romances, de notícias trágicas e escândalos políticos misturavam-se aos comentários sobre aritmética, trigonometria e equações, na hora do jantar.
         Em certo dia, o filho ouviu uma de suas irmãs dizer à mãe sobre um sonho muito bom que tivera, mas de que não se recordava muito bem. Subitamente, o menino abandonou o cômodo onde estavam, e foi para seu quarto. Esperou alguns instantes até que irmã que lidava com números ficasse sozinha. Correu até ela. Tomou-lhe a mão e pediu que o levasse para um pequeno passeio. Ela o seguia,  em linha reta, quando Onírico pediu que ela dobrasse à esquerda.
        - Você não disse um pequeno passeio, menino? Não podemos demorar muito, temos que chegar antes que o jantar esteja pronto.Um murmúrio do menino a convenceu, e assim ela o acompanhou. E lá estava o mesmo campo florido dos sonhos dela...
         A irmã não podia acreditar no que viu. Assombrada, olhava o irmão, olhava o mundo enramalhetado e não sabia se o que experimentava era devaneio ou realidade. Arrebatada pela atmosfera de sonho, correu pela campina, de mãos dadas com Onírico, até que chegou a hora de voltar a casa. Ela lhe prometeu segredo e retornaram.
A moça dos números era a mais cética das três, talvez por isso tenha ficado bastante perturbada com o ocorrido. Que poder tinha Onírico de penetrar o cenário dos  sonhos?   O campo era lindo e simples,matutava... Por quê, então, ela nunca o vira, em suas caminhadas pelos arredores?
-Vamos, garoto!  Já abusamos da hora.
        Ao chegarem, sentarem-se à mesa, sob o olhar aflito da mãe. Por que demoraram tanto?O jantar com todos reunidos era costumeiro e esperado. Onírico não incomodava mais ninguém ali com suas excentricidades
, mas, em momentos de quietude,  ele se culpava ingenuamente. Quando mais novo, não se dava conta de que tinha um pequeno problema que o diferenciava dos demais e até mesmo incomodava alguns. Agora, com dez anos,  cultivava uma angústia precoce. Todos da casa sabiam que o garoto passava pela fase dos questionamentos e das incertezas. A sua companheira de passeio comia vagarosamente, desejando que alguém rompesse o silêncio, falando sobre o que se passava. A futura jornalista da família percebeu o comportamento anormal de sua irmã e riu colocando a mão na boca. Tarde demais. Um garfo chocou-se com um prato. Depois, reinou o maior dos silêncios.
 Problema.  Assunta assumiu solita o filho de um turista italiano, que nunca mais deu notícias. Ela nem sabia o sobrenome do dito cujo. Onírico, que por princípio era um sonho, foi virando um baita pesadelo. Ainda havia um elemento complicador:  a falta de dinheiro em casa. Aos 10 anos, o garoto já era maior que as irmãs.  Mas o que gerava confusão, é que tinha um sestro. Quando ria, dava uma piscada forte com o olho esquerdo. A diretora da escola, acumulando reclamações das professoras, não aguentava mais Onírico.
       -Assunta! Mãezinha! seu filho precisa cair na real e com ele toda a sua feminina família, disse Dona Mafalda, a diretora, em mais uma chamada da genitora à escola, dando-lhe uma piscada com o olho direito.
       Assunta observou bem aquele abrir e fechar de olhos da Senhora Dona Diretora. Aquilo lhe pareceu zombaria de mau gosto, afinal, seu filho era quem tinha o cacoete da piscadela. Ela, a mãe, sabia  que era um tique nervoso e ficava deverasmente contrariada com o desentender dos outros, que não o conheciam bem. Ah, se o maledeto italiano estivesse aqui pra defender nosso filho! Seu rosto, então, ganhou uma expressão nunca vista antes. Eu não preciso de marido, dizia a si mesma, para se convencer de que isso era uma verdade. Mas ao ver o seu menino vulnerável, exposto à maldizência, ficava triste. Foi isso que Onírico leu em seus olhos, naquele instante. Aquele olhar marcou-o para sempre.
           A mãe, por um instante, recordou-se do primeiro encontro com o pai de Onírico. Fazia já 11 anos. Alta, seios fartos, derrière empinado e quadris largos. Sambava na avenida, quando o olhar estrangeiro de um jovem muito pálido a fez perder a ginga. Ele acompanhava a cadência da mulata e via o suor escorrer pelo seu rosto matreiro. Os lábios, vermelhos de batom, abriam-se num sorriso muito branco, convidando o italiano para acompanhá-la naquele momento em que se imaginava rainha.
             E o italiano fez-lhe o sonho. Assunta, a rainha do lar.
            Amaram-se nas noites de frio, foram confidentes. A diferença da cultura e da cor da pele provocava no casal uma atração que eles não podiam negar ou fingir que não existia. Agora, sem ele e após mais um dia de trabalho, ela se deitou, exausta. E desligando o abajur, mirou o teto torto da casa onde vivia com seus filhos.
          Imagens distorcidas e com muito brilho atormentaram, naquela noite, a mente de Assunta. Era um sonho incomum. Como em um filme do Kurosawa, mergulhava em alguma obra de Van Gogh. Era desesperador. Sem aviso e tão de repente como  uma chuva passageira, veio a calmaria, pássaros cantando enquanto ela caminhava com um semblante sereno por uma trilha repleta de vegetação. O corpo da dona de casa acalmou-se mais uma vez, sobre a cama de casal.
       No outro quarto, Onírico transpirava e de olhos fechados, digeria um sonho diferente. As cenas que a mãe vivenciava enquanto dormia, chegavam a ele com uma força impiedosa. O corpo magro do menino inquietava-se e a boca fechada anunciava que o momento era só dele. Pânico. Com a camisa empapada de suor, ele sentou-se na cama e tentou gritar. O medo de revelar os sonhos da mãe impediram que a voz saísse de pronto. Tentou ainda caminhar, sair dali. Mas os pés pareciam presos ao chão de cimento. Na garganta, um bolo estava formado. O sonho de Assunta se concretizara no corpo do filho.
    Entre  tremores e suores, adormeceu.
    No dia seguinte, uma tranqüilidade aparente pairava no lar. As meninas estavam na aula. Assunta, quieta em seu quarto, olhava o peito que levantava a cada respirar. Onírico entrara lentamente no aposento, deixando o ranger da porta atrapalhar o silêncio. Seu olhar não era o mesmo.
   Aproximando-se da mãe, balbuciou ternuras e sentou-se na cama. Tomou cuidado para não acordá-la.
 - Filho...
  A voz saiu sonolenta e, com os olhos entreabertos, tocou as têmporas do menino. Ele não transpirava como antes e a roupa havia secado.
  - Mãe, a senhora sonhou que hoje...
 Com a mão direita, ela rapidamente impediu que ele pronunciasse o seu tão secreto sonho. Não que houvesse algo condenável. Eram recortes do seu inconsciente, sua parte mais obscura. Tinha direito à privacidade. Ao sentir que ele havia entendido a mensagem, lentamente, afrouxou o lacre que havia feito com a mão na boca do filho e levantou-se para deixar que a luz do sol iluminasse o quarto. De costas para ele, sentiu vontade de abraçá-lo. E estava prestes a fazê-lo, quando ruídos estabanados anunciaram a chegada das três filhas.
     Sem pedir licença, entraram para beijar a mãe e ao verem o irmão acordado e quieto, entreolharam-se curiosas.
  -Uai, madrugou, maninho? – perguntou a estudante de Matemática já imaginando que a explicação seria simples. Uma leve insônia, uma dor nas costas... Não precisaria complicar.
  - Vai à missa com as beatas? – Riu a estudante de Letras puxando um banquinho para se sentar.
   Apenas a estudante de Jornalismo permitiu-se compartilhar com o irmão a solidão silenciosa. E ajoelhando-se na frente dele, envolveu-o num abraço cheio de cumplicidade.Ele nada disse. Apenas sabia que aquele instante fora antecipado pelo sonho da noite anterior.

   Apesar da tenra idade, Onírico compreendeu que adivinhar o íntimo dos outros era seu destino. Conformou-se, mesmo sem antever se tal responsabilidade era prêmio ou maldição.

 Texto alinhavado por Teresa A. e escrito por Vera V., Salviano S., Adriana G., Cláudia A., Nícolas, Ida F.